
Fisioterapia Pélvica na gravidez: para quê e quando começar?
Durante a gravidez, o corpo adapta-se continuamente ao crescimento do bebé. A região abdominal, a bacia e o pavimento pélvico estão sujeitos a alterações importantes — e é perfeitamente natural surgirem dúvidas sobre exercício, perdas de urina, dor ou preparação para o parto.
É aqui que a Fisioterapia Pélvica pode ter um papel importante, mesmo antes de existir qualquer problema.
O que acontece ao pavimento pélvico durante a gravidez?
O pavimento pélvico é constituído por músculos e outros tecidos que participam no suporte dos órgãos pélvicos, continência urinária e fecal, função sexual e controlo da pressão abdominal.
Durante a gravidez, estes tecidos têm de se adaptar progressivamente às alterações hormonais, ao aumento de peso e às mudanças mecânicas próprias desta fase.
Por isso, algumas mulheres podem desenvolver sintomas como:
- perdas de urina ao tossir, espirrar ou fazer exercício;
- sensação de peso ou pressão pélvica;
- desconforto na região pélvica;
- dificuldade em controlar ou relaxar adequadamente o pavimento pélvico.
Fisioterapia pélvica é só fazer exercícios de Kegel?
Não. E este é provavelmente um dos maiores mitos.
O pavimento pélvico não precisa apenas de saber contrair. Precisa de conseguir contrair, relaxar e coordenar-se com a respiração e com as restantes estruturas do corpo.
Uma avaliação permite perceber como cada mulher utiliza esta musculatura e, a partir daí, individualizar o exercício. As próprias recomendações do NICE defendem que o treino supervisionado avalie tanto a capacidade de contração como de relaxamento, adaptando o programa às necessidades de cada mulher.
Pode ajudar a prevenir perdas de urina?
Sim. Esta é uma das áreas em que temos melhor evidência.
Uma revisão sistemática de 2024, envolvendo 30 estudos e mais de 6.600 mulheres, concluiu que o treino dos músculos do pavimento pélvico durante a gravidez esteve associado a uma redução do risco de incontinência urinária e também de lacerações perineais graves.
O NICE recomenda, por isso, que as grávidas sejam incentivadas a realizar treino do pavimento pélvico e recomenda programas supervisionados quando existe incontinência urinária de esforço ou mista.
E o restante exercício durante a gravidez?
Também é importante.
Numa gravidez sem complicações ou contraindicações, manter-se fisicamente ativa é seguro e desejável. Exercício aeróbio e treino de força podem continuar a fazer parte da rotina, naturalmente com as adaptações necessárias ao longo da gravidez.
A fisioterapia pélvica pode ajudar precisamente a integrar estas duas dimensões: preparar o pavimento pélvico sem deixar de preparar o resto do corpo.
E depois do parto?
O acompanhamento não termina necessariamente no nascimento.
No pós-parto pode ser importante avaliar sintomas, função do pavimento pélvico, parede abdominal e regresso progressivo ao exercício. Isto é particularmente relevante perante perdas urinárias, sensação de peso vaginal, dor ou dificuldade em regressar à atividade física.
Em resumo
A Fisioterapia Pélvica durante a gravidez não é apenas tratamento para quando aparece um problema.
Pode ajudar a conhecer melhor o corpo, prevenir ou controlar sintomas, preparar o pavimento pélvico e manter uma gravidez fisicamente ativa.
Na +Physio, acreditamos que cada gravidez deve ser acompanhada de forma individual: preparar o corpo para o parto, mas também para tudo aquilo que vem depois.
Referências:
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Pelvic floor dysfunction: prevention and non-surgical management. NG210. 2021.
- Zhang D, Bo K, Montejo R, et al. Influence of pelvic floor muscle training alone or as part of a general physical activity program during pregnancy on urinary incontinence, episiotomy and third- or fourth-degree perineal tear: systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. Acta Obstet Gynecol Scand. 2024;103(6):1015-1027.
- American College of Obstetricians and Gynecologists. Physical Activity and Exercise During Pregnancy and the Postpartum Period. Obstet Gynecol. 2020;135:e178-e188.


