
Escoliose e Reeducação Postural: sim ou não?
“Tenho escoliose. Preciso de corrigir a minha postura?”
É uma pergunta muito frequente em consulta. E a resposta mais correta é: depende.
A escoliose não é simplesmente uma “má postura”. Trata-se de uma alteração tridimensional da coluna, que pode envolver desvios laterais, rotação das vértebras e alterações no alinhamento do tronco.
Sobretudo durante o crescimento, perceber que tipo de escoliose existe, qual a sua magnitude e qual o risco de progressão é mais importante do que tentar simplesmente “endireitar as costas”.
Então a postura não importa?
Importa. Mas provavelmente não da forma como durante muitos anos imaginámos.
Não existe uma postura perfeita que tenhamos de manter durante todo o dia. E dizer constantemente a uma criança ou adolescente para se “pôr direito” dificilmente constitui, por si só, um tratamento para uma escoliose.
A intervenção deve ser mais abrangente e pode incluir autocorreção, consciência corporal, movimento, força, controlo do tronco, respiração e integração das correções nas atividades do dia a dia. É precisamente esta abordagem tridimensional que está presente nas recomendações internacionais para exercícios específicos para escoliose.
Reeducação postural: sim ou não?
Sim — quando faz parte de uma estratégia individualizada e ativa.
Atualmente existem programas de exercícios específicos para escoliose, conhecidos como PSSE – Physiotherapeutic Scoliosis-Specific Exercises, que incluem abordagens como Schroth, SEAS e exercícios de autocorreção ativa.
A evidência mais recente sugere que estes programas podem contribuir para melhorar o ângulo de Cobb, a rotação do tronco e a qualidade de vida, particularmente na escoliose idiopática do adolescente. No entanto, os resultados variam e a qualidade da evidência ainda não é perfeita.
Uma revisão de 2024, por exemplo, encontrou resultados positivos para diferentes métodos, mas reforçou também a necessidade de mais investigação de qualidade e de acompanhamento a longo prazo.
E o exercício? Posso treinar normalmente?
Na maioria das situações, ter escoliose não significa deixar de praticar exercício ou desporto.
Pelo contrário, manter uma vida ativa é geralmente desejável. Quando necessário, o fisioterapeuta pode complementar essa atividade com exercícios específicos, adaptados à curva, aos sintomas, à idade e aos objetivos de cada pessoa.
Em curvas com maior risco de progressão, sobretudo durante o crescimento, a abordagem pode também envolver vigilância médica e utilização de colete, pelo que o acompanhamento deve ser multidisciplinar.
Em resumo
A escoliose não deve ser reduzida a uma questão de “boa ou má postura”.
Reeducação postural? Sim. Mas não como uma tentativa constante de obrigar a coluna a ficar direita.
O objetivo é compreender cada pessoa, promover movimento, capacidade física e estratégias de autocorreção adequadas e, quando necessário, acompanhar a evolução da curva.
Na +Physio, acreditamos numa abordagem ativa e individualizada: menos medo do movimento e mais ferramentas para compreender e utilizar melhor o corpo.
Referências:
- Negrini S, et al. 2016 SOSORT guidelines: orthopaedic and rehabilitation treatment of idiopathic scoliosis during growth. Scoliosis Spinal Disord. 2018;13:3.
- You MJ, et al. Effectiveness of Physiotherapeutic Scoliosis-Specific Exercises on 3-Dimensional Spinal Deformities in Patients With Adolescent Idiopathic Scoliosis: A Systematic Review and Meta-analysis. Arch Phys Med Rehabil. 2024;105(12):2375–2389.
- Wang Z, et al. Comparative efficacy of six types of scoliosis-specific exercises on adolescent idiopathic scoliosis: a systematic review and network meta-analysis. BMC Musculoskelet Disord. 2024;25:1070.





