
Tenho uma tendinite ou tendinopatia?
Dor no Aquiles depois de correr? Dor no tendão rotuliano ao saltar? Ou um ombro que começa a incomodar sempre que levantas o braço?
É frequente ouvirmos: “Tenho uma tendinite.” Mas será mesmo esse o termo mais adequado?
Tendinite ou tendinopatia?
Durante muitos anos, utilizou-se o termo tendinite para descrever praticamente qualquer dor num tendão. O sufixo “-ite” pressupõe, contudo, que a inflamação seja o principal problema.
Hoje sabemos que a realidade é mais complexa.
Quando existe dor persistente e perda de função de um tendão associadas à carga mecânica, o termo atualmente recomendado é tendinopatia.
Isto não significa que os processos inflamatórios não possam estar presentes. Significa apenas que uma tendinopatia não deve ser entendida simplesmente como um “tendão inflamado”.
Porque aparecem as tendinopatias?
Os tendões são estruturas muito resistentes e, mais importante, adaptam-se às cargas que lhes colocamos.
O problema pode surgir quando existe um desequilíbrio entre a carga aplicada e a capacidade atual do tendão para a tolerar. Isto acontece frequentemente depois de alterações como:
- aumentar rapidamente o volume ou intensidade do treino;
- começar a correr ou treinar depois de um período de menor atividade;
- aumentar saltos, sprints ou outras ações explosivas;
- mudar significativamente a rotina ou o tipo de esforço.
Mas também importa perceber o contrário: um tendão com pouca exposição à carga também perde capacidade. Por isso, nem sempre “descansar o tendão” é a melhor solução. A adaptação do tendão depende de uma exposição adequada e progressiva à carga.
Se tenho dor, devo parar?
Nem sempre.
Reduzir temporariamente algumas atividades pode ser necessário, sobretudo quando os sintomas estão mais irritáveis. Mas repouso completo prolongado pode diminuir ainda mais a capacidade do tendão para tolerar esforço.
Na maioria das tendinopatias, o objetivo passa por encontrar uma quantidade de carga que o tendão tolere e, a partir daí, aumentar progressivamente a sua capacidade.
É aqui que o exercício assume um papel fundamental.
Como se trata uma tendinopatia?
Não existe um exercício mágico para todos os tendões.
A reabilitação pode incluir exercícios isométricos, concêntricos e excêntricos, trabalho de força progressivamente mais pesado e, quando necessário, uma evolução para tarefas mais rápidas e específicas — como correr, saltar ou mudar de direção.
A escolha e a progressão dependem do tendão envolvido, dos sintomas, da capacidade atual e, sobretudo, daquilo a que a pessoa pretende regressar.
E uma ecografia ou ressonância?
Podem ser úteis em determinadas situações, mas uma alteração estrutural num exame não conta toda a história.
A avaliação de uma tendinopatia deve considerar a dor, a função, a capacidade do tendão para suportar carga e as exigências da pessoa. O diagnóstico não deve depender exclusivamente da imagem.
Em resumo
Um tendão com dor não é necessariamente um tendão frágil ou “estragado”.
Na maioria das situações, a estratégia passa menos por evitar o movimento e mais por perceber quanto o tendão consegue tolerar hoje e como podemos prepará-lo para tolerar mais amanhã.
Na +Physio, avaliamos a origem dos sintomas, as exigências da tua atividade e a capacidade atual do tendão para construir uma recuperação progressiva e adaptada aos teus objetivos.
Referências:
- Scott A, et al. ICON 2019: International Scientific Tendinopathy Symposium Consensus: Clinical Terminology. Br J Sports Med. 2020;54:260–262.
- Lewis JS. Rotator cuff tendinopathy: a model for the continuum of pathology and related management. Br J Sports Med. 2010;44:918–923.
- Demangeot Y, et al. Exercise parameters to consider for Achilles tendinopathy: a modified Delphi study with international experts. Br J Sports Med. 2025.



